Nenhum homem é uma ilha

“De onde surgem as amizades?”, um dia me perguntei, ao me pegar pensando no motivo pelo qual sou amiga de Fulana e não de Ciclana, se nos conhecemos no mesmo dia e no mesmo momento. Não que eu esteja insatisfeita com minhas amizades, ou que gostaria de ter me tornado melhor amiga de Beltrana. Nada disso. Achei graça porque as melhores amizades acontecem de um jeito tão natural e despretensioso quanto andar ou falar. Ninguém anda desesperado pelas ruas, com um sensor que busca amigos. Fazê-los é como jogar em uma peneira com trama bem apertada a mais fina das areias. A maior parte vai rapidamente passar pelo filtro. Uma segunda parte da areia que ficou presa na peneira, vai cair pelos buraquinhos depois de uma ligeira chacoalhadinha. Mas são os pouquíssimos grãos resistentes em cair que são os amigos que valem a pena para a gente manter.

Pare para pensar em seu ciclo social. Tem aqueles, os ‘conhecidos’, que cumprimentamos e conversamos de modo fático, quando os encontramos no shopping ou fazendo feira, e sempre lançamos o famoso “nossa, que mundo pequeno!”. Desses grãos, temos vários – vide os 1367 amigos de seu Facebook. Agora, separando o joio do trigo, concentre-se em seus amigos mais próximos. É possível contá-los em uma mão, no máximo, em duas. Você talvez perceberá que cada um faz parte de um momento diferente de sua vida. Li uma vez, em um artigo que citava uma pesquisa científica sobre amizades, que precisamos de vários tipos diferentes de amigos: um para confiar todos os nossos segredos e problemas, uma para nos fazer cair na real, outro com espírito aventureiro para nos ajudar a sair de nossa zona de conforto, ou ainda aquele só para jogar conversa fora em uma mesa de bar. Uma única pessoa dificilmente exerce todas as funções que procuramos em amizades, da mesma forma que alimentar-se apenas de um único tipo de fonte da cadeia alimentar não nos manterá saudáveis.

Agora pode pensar de novo em seus amigos mais queridos e perceber: tem a amiga do francês, a melhor amiga dos tempos da escola, o grupinho de amigos das suas aulas de inglês quando você tinha 15 anos, a amiga do prédio, o amigão da praia, a colega de trabalho, o seu santo e sagrado grupo de trabalho da faculdade. Estes você faz questão de encontrar, mesmo que juntando os ocupados calendários, o encontro só seja possível uma vez por ano (e olhe lá). Mas aí, novamente, paramos para pensar – como, depois de tanto tempo, ainda mantemos contato com tantas pessoas diferentes? Ou melhor, por que, de tantas outros que passaram por nossa vida, esses são ainda especiais, mesmo que passemos longos períodos sem vê-los?

Se você esperou encontrar uma resposta para as perguntas ao longo deste texto, sinto informá-lo, mas não as tenho. Não por má fé, porque acredite, já tentei buscá-las em tudo que é lugar imaginável. Só sei que não é á toa que as pessoas passam por nossa vida. Como na peneira, uns ficam, muitos saem. De todos levamos aprendizados. E pelos que ficam, temos que ser gratos. Pois aquela mesma pesquisa do artigo que citei no começo dizia que os amigos nos ajudam a viver uma vida mais longa, feliz e saudável. Além do mais, como dizia Thomas Morus: “Nenhum homem é uma ilha”.

Na Cabeceira: Fama e Anonimato

Além do ‘double-check’

      Gay Talese, autor de Fama e Anonimato, é um americano nascido em Nova Jersey, no ano de 1932. Sua carreira jornalística se iniciou ao acaso. Aos 15 anos, com o objetivo de ganhar destaque no time de beisebol de sua escola, Talese assumiu a função de passar, por telefone, os resultados das partidas escolares ao jornal local, o ‘Ocean City Sentinel-Ledger’. Com seu grande talento de contar histórias, não demorou a ganhar uma coluna semanal no mesmo jornal, terminando o colegial com mais de 300 artigos publicados. Em 1953, formou-se em jornalismo pela Universidade do Alabama, pois, segundo ele, era o que ele conhecia. Depois da faculdade, mudou-se para Nova York, e teve como primeiro trabalho a função de office boy, no renomado jornal New York Times. Após dois artigos que custaram a ser publicados, e dois anos de hiato devido a uma breve participação no exército americano, Talese tornou-se o repórter esportivo do New York Times.

Sua carreira como repórter em revistas se iniciou por volta de 1960, na Esquire Magazine, onde Talese teve a liberdade que precisava para escrever ao seu estilo elaborado e criativo, com descrições minuciosas e dramáticas. Nascia, então, o estilo ‘New Journalism’: a reportagem enriquecida com técnicas literárias de ficção, a qual Gay Talese é um dos precursores.  Vários de seus artigos mais aclamados publicados pela revista Esquire, como ‘Frank Sinatra está resfriado’ e ‘O silêncio de um herói’, estão presentes em sua coletânea de 1970, Fama e Anonimato, que contem textos produzidos por ele há mais de quarenta anos.

      Fama e Anonimato é um livro que pode assustar o leitor à primeira vista: as 536 páginas representadas por uma arte pouco chamativa são desanimadoras. Mas se engana quem julgar o livro por sua capa. Basta a leitura começar para o leitor desejar que o fim do livro demore a chegar.

A primeira parte, ‘Nova York – A jornada de um serendipitoso’, é composta por uma série de perfis da cidade, apresentados em subcapítulos: as coisas que passam despercebidas, os anônimos, os personagens, as profissões estranhas, os esquecidos. ‘A jornada de um serendipitoso’ é a apresentação atemporal da cidade cosmopolita, e trás a tona a particularidade de cada New Yorker, anônimo diante tantos outros milhões de nova-iorquinos. Através deste capítulo, nos encontramos viajando pelos cantos já conhecidos, obscuros, esquecidos, curiosos ou misteriosos de Nova York. Ao contrário de muitas outras obras que tem a ilha de Manhattan como protagonista, o capítulo não é um aglomerado de clichês e estereótipos sobre a cidade, e sim um delicioso passeio realista, graças à descrição minuciosa de Gay Talese.

Originária da reportagem ‘A ponte: a construção da Verrazano-Narrows’ para o New York Times, a segunda parte da obra traz histórias por trás da construção, de 1959 a 1964, que ligou o bairro do Brooklyn, em Manhattan, ao outro lado da ilha, em Staten Island. O capítulo retrata, de um modo um pouco maçante, os vários dramas por trás de uma obra tão grandiosa; do deslocamento de cidadãos comuns para abrir espaço para a construção, ao deslocamento dos joviais e energéticos ‘boomers’, os trabalhadores das construções de pontes, que adoravam sua profissão. Mesmo que não fosse dos mais seguros, e que fins trágicos fossem comuns, os boomers tinham orgulho de seu ofício; além de viajar-se muito, dar dinheiro e prestígio, era uma profissão passada de pai para filho.

‘Excursão ao interior’, a terceira e última parte do livro, contém interessantes perfis de grandes celebridades. Merecem destaque os artigos sobre o lutador de boxe Floyd Patterson (‘O silêncio de um herói’), o diretor de cinema Joshua Logan, o escritor Ernest Hemingway e o jogador profissional de beisebol, mais conhecido como ‘ex-marido de Marilyn Monroe’, Joe DiMaggio. Ainda, a reportagem ‘VOGUElândia’ é mais um interessante e divertido perfil, não de uma pessoa, mas sim de um célebre e sofisticado universo. As descrições bem detalhadas da redação, dos funcionários e da editora Condé Nast, localizada no Graybar Building, nos levam a pensar que Lauren Weisberger se inspirou na obra de Talese, e não em sua experiência real dentro da revista, para escrever ‘O diabo veste Prada’.

No entanto, o grande destaque de ‘Excursão ao interior’ é o incrível capítulo ‘Frank Sinatra está resfriado’.  São cinquenta páginas do livro dedicadas ao cantor, que não deu sequer uma entrevista, seja cara a cara ou por telefone, a Gay Talese. A grande questão é, de onde então, Talese conseguiu todo o material para escrever uma de suas mais importantes reportagens? A resposta: sujando os sapatos.

O jornalista passou semanas seguindo Frank Sinatra, que não lhe concedeu uma única entrevista. Talese não se contentou com o não, e aproveitou todos os meios que possuía para que sua pauta não furasse. Conversou com amigos, familiares e pessoas que já haviam trabalhado com Sinatra, foi a lugares que o cantor frequentava. Participou até mesmo da gravação de um especial de Natal de Sinatra para a TV americana. Chegou tão perto fisicamente, mas passou longe de conversar com o astro. O fato de desencontro, porém, não prejudicou em nada o trabalho de Talese – através de suas investigações, pode conseguir muito mais informações do que conseguiria caso se encontrasse oficialmente com Frank Sinatra. Em seu artigo, o ‘il padrone’ é mostrado ora como uma pessoa simples e carismática, ora como um artista rude e saturado por seu ego. Por fim, sua ‘pesquisa de campo’ acrescentou muito mais do que frases prontas e decoradas vindas de um astro assessorado.

Gay Talese é um adepto da ‘arte de sujar os sapatos’; nunca mediu esforços para conseguir o melhor que sua pauta tem a oferecer. O seu trabalho sempre consistiu em se imergir na realidade do objeto de reportagem, seja ao investigá-lo previamente, ao passar semanas em seu cenário, ao entrevistar centenas de fontes e ao conferir múltiplas vezes a fidelidade de sua produção com a realidade. O jornalismo de Gay Talese está além do ‘double-check’, e deve servir de inspiração a todos os jornalistas que desejam exercem um bom trabalho.

 

Carolina Mikalauskas Sanches é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, ama Nova York e virou fã de Gay Talese depois de ler Fama e Anonimato.

Zuzu e a Ditadura: militância através da moda

Ocupação Zuzu é uma incrível e interativa exposição do Itaú Cultural, em homenagem à estilista mineira Zuleika Angel Jones. Zuzu começou sua carreira costurando para ela e para os filhos, até se encontrar em projeção no cenário da moda, tanto brasileiro, quanto – principalmente – o internacional. Fez grande sucesso no exterior com suas estampas e temáticas típicas brasileiras: alegres, tropicais, com flores e pássaros. Em sua lista de clientes, constaram primeiras-damas e celebridades internacionais, como a atriz Liza Minelli. Zuzu Angel, etiqueta da alta sociedade, foi precursora da brasilidade na moda, e costumava afirmar: “eu sou a moda brasileira!”.

A exposição não leva o nome à toa: é literalmente uma ocupação de quatro andares no prédio do Itaú Cultural. Logo no térreo, está a primeira parte da exposição: uma cronologia história, correlacionando fatos sobre a estilista, a situação histórica do Brasil e trechos de música e literatura, além de livros sobre moda e vídeos, incluindo a última entrevista de Zuleika dada à mídia, pouco antes de seu assassinato.

Ao subir o primeiro andar, o visitante é acolhido por um letreiro luminoso com o nome ‘Zuzu’. Em um amplo espaço, estavam espalhados os figurinos, croquis, estampas e bordados alegres de Zuzu. Ainda, havia revistas em que o trabalho da estilista foi exposto, e até mesmo sacolas, fitas e cartões de visita que eram utilizados em sua loja. Uma salinha no canto do salão reproduziu o seu atelier. Definitivamente o meu andar preferido, onde foi possível sentir o sucesso que foi a marca que teve um anjinho como logotipo.

No primeiro andar abaixo do térreo, está o espaço dedicado ao Luto de Zuzu Angel. Uma parte de grande teor emocional, tema e paredes pretas, que dão ênfase à fase sofrida da estilista, durante os chamados ‘Anos de Chumbo’. A partir do assassinato de seu filho, Stuart Angel, grande ativista durante o regime militar, em 1971, Zuzu passou a viver e trabalhar a partir de seu luto. Não só vestia-se apenas de preto quando em público, mas também usou seu ofício como uma majestosa forma de protesto – a alegria tropical fora trocada por temas militares e obscuros. Seus bordados costumeiros  passaram então a ser representados por anjos feridos, canhões de guerra, pássaros engaiolados e outros desenhos que transparecessem o seu sentimento mais profundo em um tempo de terror. Dessa forma, Zuzu Angel foi a primeira estilista brasileira – e provavelmente, também internacional – a usar a moda como um protesto e denúncia à política.

Os destaques para este andar são, além dos figurinos, estampas e bordados de luto da estilista, documentos e cartas da busca incessante, escritas para diversos remetentes, como amigos e até governantes americanos, a partir do momento do desaparecimento de seu filho, até o dia do acidente de carro premeditado que matou Zuzu Angel. Em uma parede, ondas do mar são projetadas, ao mesmo tempo em que o som da maré dá o tom ao ambiente. Ainda, o visitante pode escrever uma carta a um conhecido desaparecido durante a época do Regime Militar.

O segundo andar abaixo do térreo foi dedicado a um espaço interativo, onde durante o período da exposição, ocorreram interessantes e enriquecedores oficinas e discussões sobre moda, política e comunicação, e que contaram com importantes nomes da moda brasileira como Ronaldo Fraga, Isabela Capeto e Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel. Neste andar, um grande painel com uma estampa, em preto e branco, não finalizada por Zuzu, esteve à disposição para que os visitantes lhe dessem continuidade. Com canetinhas coloridas, muitos pintaram os ramos de flores e pássaros aprisionados, enquanto outros utilizaram o espaço para deixar uma mensagem em homenagem à estilista.

abril/2014

Na cabeceira: A Sangue Frio

Quanto valem quatro vidas?

Para Perry Smith e Richard Hicock, quatro vidas lhe custaram apenas quarenta dólares, um par de binóculos e um aparelho de rádio.

 

A família Clutter era o protótipo da família perfeita americana: típicos sulistas, religiosos devotados, amigos de todos e um exemplo a ser seguido. Herb, o patriarca, era um fazendeiro que cresceu com seu trabalho honesto, liderava diversas associações de sua pequena cidade Holcomb, no Kansas. Sua mulher, Bonnie, quase nunca era vista, pois sofria de problemas psicológicos, e Nancy e Kenyon eram os filhos adolescentes que toda família gostaria de ter.

De um dia para o outro, sem motivo aparente, a inofensiva família é encontrada morta em sua própria casa. O assassinato mobiliza toda a pequena Holcomb, e vizinhos passam a se olhar com desconfiança. Afinal, qualquer um poderia ser um suspeito da tragédia, que despertou a curiosidade de Truman Capote e foi o pano de fundo para a obra A Sangue Frio. Ao ler uma pequena nota sobre o acontecimento no New York Times, Capote decide ir ao Kansas, acompanhado da também escritora e melhor amiga de infância, Harper Lee – importante parceira de pesquisa para a obra, – para escrever sobre o crime.

Mais de mil páginas de anotações, feitas apenas através da memória do autor – que alegava memorizar mais de 90% do que lhe era dito – lhe renderam o livro-reportagem que foi um dos precursores do New Journalism. Gênero literário de romances de não ficção, buscava contar o real com técnicas e artifícios próprios da escrita literária. Capote faz uma imersão no universo do crime: conversou com membros da família, com os investigadores do caso, e até mesmo com os responsáveis pela tragédia: Richard ‘Dick’ Hicock e Perry Smith, este último a quem acabou tornando-se próximo. Foram seis anos de preparação e coleta de informações. O ‘making of’ desta produção se tornou um filme, em 2005: Capote, dirigido por Bennet Miller, foi estrelado por Phillip Seymour Hoffman, que deu vida ao Capote e ganhou por este papel um Oscar de melhor ator.

      A Sangue Frio é um livro dividido em quatro capítulos. O primeiro, chamado Os últimos a vê-los vivos, intercala fatos e acontecimentos da vida perfeita da família Clutter com os planos e falcatruas dos assassinos Perry e Dick. Com bastante mistério, tornando-se mais claro com o desenrolar, introduz o que vai dar rumo ao restante do livro. O segundo, Pessoas Desconhecidas, mostra relatos e situações de pessoas que conheciam a família Clutter, as investigações sobre o caso, e a fuga dos assassinos para o México. Este capítulo nos faz detetives, ao tentarmos ligar os pontos para descobrir quem matou os Clutter. É no terceiro capítulo, Respostas, em que o mistério começa a ser desvendado, e descobrimos os motivos sobre o assassinato: Perry e Dick acreditavam que o senhor Herb Clutter tinha em sua casa milhares de dólares guardados em um cofre. Ao não encontrarem o dinheiro, matam a família a sangue frio, movidos por uma frustração que os leva a cometer tal barbaridade. Por fim, A esquina, fecha o livro com a prisão (que durou 6 anos, o tempo que o livro demorou a ser finalizado) e as confissões de Perry e Dick, onde é mostrado os seus lados psicológicos de tom psicopata, até o enforcamento dos assassinos.

A leitura é fácil, e a vontade é de não largar o livro até terminá-lo. Um leitor desinformado pode pensar que A Sangue Frio se trata de uma obra de ficção, graças a todos os detalhes, descrições minuciosas e o aprofundamento dos personagens e de cenas. O assassinato, obviamente, é o grande clímax, o que torna a obra um mix de emoções: o leitor é envolvido pela trama muito bem escrita, ao mesmo tempo em que a tragédia da boa família Clutter o deixa triste. A Sangue Frio nos faz refletir a que ponto o egoísmo de dois homens pode chegar, ou melhor, custar: 4 vidas,  40 dólares, um par de binóculos e um aparelho de rádio.

Codinome Capote

Truman Streckfus Persons nasceu em Nova Orleans, Louisiana, em 30 de setembro de 1924. Filho de um comerciante vigarista com uma mãe adolescente, passou sua infância aos cuidados de parentes maternos em Monroeville, Alabama. Desde muito pequeno, Truman demonstrava talento à arte literária – foi autoditada, e aprendeu a ler e a escrever antes mesmo de entrar na escola.

Em 1933, muda-se para Nova York, onde passa viver com sua mãe e seu padrasto, Joseph Capote, quem o adota e lhe dá o novo sobrenome. Terminou sua educação formal em 1943, na Franklin School, enquanto trabalhava no xérox do departamento de arte da revista The New Yorker. Capote sempre teve a ideia fixa de não cursar o ensino superior, pois acreditava que não seria uma faculdade que o formaria escritor: “Eu sentia que alguém ou era ou não era escritor, e nenhuma combinação de professores poderiam influenciar o resultado”. Entre diversas obras que produziu, recebe destaque Bonequinha de Luxo, de 1958, uma vez que o livro se tornou um grande sucesso cinematográfico com a atuação de Audrey Hepburn como a personagem socialite Holly Golightly.

Considerado um prodígio da literatura americana, Truman Capote escreveu não só livros, mas também roteiros para o teatro e para o cinema. Capote nunca escondeu sua homossexualidade, e era um bon vivant: sua vida foi polêmica e extravagante, regada a muitas festas espalhadas por diversos círculos sociais – celebridades de Hollywood, políticos, escritores, membros da realeza e da alta sociedade. A Sangue Frio foi o pico de sua carreira, que ao invés de ser estabilizada ou continuar a crescer, precedeu a decadência do autor. Alcoólatra e usuário de drogas, Truman Capote morre intoxicado aos 59 anos em Los Angeles, no ano de 1984.

 

 

Jornalismo e o mundo

(Fevereiro-2014)

Em Aula Magna da Faculdade Cásper Líbero, Sérgio Dávila compartilha com os alunos de jornalismo suas experiências como correspondente internacional.

Sérgio Dávila, editor executivo da Folha de São Paulo, possui em sua carreira uma memorável experiência como correspondente internacional. Em 2000, foi enviado pelo jornal aos Estados Unidos, atuando como correspondente pela Folha em Washington e Nova York. Não somente início de um novo milênio, o ano de 2000 trouxe uma série de acontecimentos importantes para o cenário mundial, os quais Sérgio Dávila teve a oportunidade de cobrir. Segundo o jornalista, foi uma questão de ‘estar no lugar certo, na hora certa’.
Um ano após a sua mudança para os Estados Unidos, em 2001, Dávila cobriu o ataque ao World Trade Center em Nova York, atentado que chocou o mundo. Ele conta que viu, de uma distância muito pequena, a segunda torre desabar. Na manhã do dia 12 de setembro, teve a chance de se aproximar dos escombros das Torres Gêmeas – o que o levou, neste mesmo dia, a escrever uma de suas reportagens mais marcantes. Em sua temporada americana, Sérgio Dávila fez a cobertura de três eleições presidenciais: a de George W. Bush, em 2000, sua reeleição, em 2004, e a primeira eleição do atual presidente, Barack Obama, em 2008.
Enquanto correspondente na Califórnia, estudou na Universidade de Stanford, como bolsista pela Knight Foundation, entre 2004 e 2005. Dávila conta que nesta época, morou na rua de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, e a apenas 5 quarteirões do criador do Twitter. Sérgio Dávila relembra que a década em que viveu nos Estados Unidos foi muito importante de se viver no país. Além disso, para ele, era um privilégio receber todo dia na porta de sua casa edições do The New York Times e da revista The New Yorker, veículos de grande prestígio mundial.
A cobertura das guerras do Iraque e do Afeganistão foi outro grande momento para a sua carreira. Através da reportagem sobre a guerra do Iraque, do dia 20/03/2003, tentou ao máximo retratar as emoções presentes nas cenas que vivenciou – Sérgio Dávila foi o único jornalista brasileiro presente no local. De acordo com ele, o segredo para lidar com situações comoventes é se distanciar destas o máximo possível.
Para que um jornalista esteja apto a fazer coberturas envolvendo risco de vida, como guerras e manifestações, é recomendável a participação em cursos de sobrevivência, que simulam situações de emergência que podem ser encontradas pelo caminho. Dávila participou do curso Caeco Paz, ministrado pela ONU na Argentina, e também participou de um curso de reconhecimento de armas, ministrado pela BBC de Londres. Além disso, o jornal segue um protocolo de segurança: existem materiais como capacetes, máscaras de gás, óculos antiestilhaço e coletes a prova de balas disponíveis para o repórter – que é convidado, e não obrigado a participar de tais reportagens.
Desde que assumiu o cargo de editor executivo da Folha de SP, Sérgio diz que escreve ‘menos do que antes e não na frequência em que gostaria’. Contudo, retornou ao Iraque, em Março de 2013, para cobrir os 10 anos da guerra. Suas experiências internacionais deram origem a dois livros: “O diário de Bagdá”, e “Nova York: antes e depois do atentado”.

Na cabeceira: Os Bastidores de uma Tragédia

Antes de publicar Hiroshima, o jornalista norte americano e vencedor do prêmio Pulitzer John Hersey atuava como correspondente no Oriente, durante a o período pós-guerra, para as revistas Life e The New Yorker. Graças a sua proximidade com o continente asiático, foi um dos primeiros jornalistas a estar presente no local após o lançamento da bomba de urânio Little Boy, na cidade de Hiroshima, em 1945. Estar no local certo, na hora certa resultou uma reportagem que trouxe ao mundo, principalmente aos americanos, uma diferente abordagem do acontecimento – a visão dos fragilizados e altruístas sobreviventes japoneses.

A princípio uma longa reportagem publicada em uma edição inteira de 31 de agosto de 1946 da revista The New Yorker – data de aniversário da bomba que devastou a cidade japonesa, foi posteriormente transformada em livro, tamanha sua repercussão. Hiroshima conta de modo extremamente detalhado e com aprofundamento sentimental os bastidores da tragédia que assolou o mundo. Um leitor desinformado poderia, assim, erroneamente pensar que a obra se trata de uma história ficcional baseada em um acontecimento real, mas com personagens criados pelo escritor. Efeito este do New Journalism, gênero literário que procura contar fatos reais com técnicas de ficção o qual, com esta obra, John Hersey é um precursor.

Em 5 capítulos, o autor reporta a história já conhecida pelo mundo de uma forma humanizada, através da perspectiva de seis hibakushas – nome dado às vítimas sobreviventes da bomba atômica – contadas através de relatos orais concedidos ao autor. O primeiro capítulo, Um clarão silencioso, mostra para o leitor como os personagens levavam suas vidas antes da tragédia que dizimou mais de 100 mil pessoas – o que faziam, a qual proximidade do epicentro da bomba se encontravam. Com estilos de vida muito diferentes, um médico endinheirado, um residente de medicina, uma viúva e seus filhos, uma jovem, um padre alemão e um reverendo japonês viviam com o temor do bombardeio, e como já era de se esperar, foram pegos de surpresa quando a bomba fora lançada.

Os capítulos intermediários – O fogo, Investigam-se os detalhes e Flores sobre ruínas – descrevem a devastação da cidade, o pânico em que suas vítimas se encontraram após o bombardeamento, a tentativa de sobreviver, e mostram com grande ênfase uma louvável característica japonesa – de cuidar e ajudar o próximo, mesmo em um momento tão difícil. Todos os sobreviventes tornaram-se iguais em uma questão de segundos. Ainda, Hiroshima acompanha as péssimas condições de saúde dos hibakushas, sua recuperação, e por fim, a tentativa dos personagens em reconstruir suas vidas após o trauma.

Depois da catástrofe, quinto capítulo do livro e escrito certo tempo depois do lançamento de Hiroshima, fecha a obra com chave de ouro. Quarenta anos após a publicação do artigo, John Hersey retorna ao Japão para mostrar as consequências e os efeitos que a bomba teve na vida dos seis hibakushas personagens de seu relato.

 

Jornalismo de Moda na Semana de Jornalismo

Original: http://casperlibero.edu.br/jornalismo-de-moda/ (cobertura sobre a mesa ‘Jornalismo de Moda’, durante a 22a Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, para o site da mesma)

A mesa sobre jornalismo de moda da 22ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero foi de tamanho sucesso que lotou a sala Aloysio Biondi, mostrando assim que não é pequena a procura por estudantes em trabalhar no mercado da moda. Com a mediação da professora Filomena Salemme, a mesa teve a participação da consultora de moda e ex-editora da revista Elle, Jussara Romão, do professor e coordenador do curso de jornalismo, Carlos Costa, que também dirigiu a revista Elle, entre 1966 e 1999, e da aluna do 4º ano de jornalismo, Marina Espindola, criadora do blog e TCC Costanza Who?

Artista plástica por formação, Jussara Romão decidiu que queria trabalhar com moda ao ter pela primeira vez uma revista Vogue em mãos. Foi paixão à primeira vista. Ela queria, então, trilhar uma profissão que não era considerada de muita importância – a de jornalista e produtora de moda. A vida de um jornalista de moda é charmosa e interessante. Mas não é só de uma vida de glamour que é feita sua profissão: tem muito trabalho por trás das belas reportagens encontradas nas revistas. Segundo Jussara Romão, chega uma hora que o ritmo frenético das “Fashion Weeks” cansa. Mas como admite Carlos Costa: “o bom de nossa profissão é que não vamos morrer de tédio”.

Marina Espíndola, prestes a se formar jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, comanda o blog Constanza Who?, que na verdade surgiu como o seu projeto de TCC – o trabalho de conclusão de curso. Ela acredita que, para os estudantes de jornalismo, blogs são uma ótima forma de criar um portfólio de seus trabalhos. Marina e Jussara falaram sobre a grande popularidade dos blogs de moda quando surgiram, pois trouxeram a moda como experiência pessoal do blogueiro ao vestir certa peça de roupa ou usar determinada maquiagem. Assim, tiveram o diferencial de levar para o leitor a individualidade, atingindo muito mais as pessoas com a sua linguagem do que os textos dos editoriais das revistas. Foram eles que começaram a propor a ideia de ser diferente, de não vestir exatamente o que as revistas sugerem, e sim criar suas próprias referências.

E esse movimento atingiu as passarelas, segundo Jussara. Ela mencionou o próprio desfile da Chanel, que havia acontecido na manhã de terça-feira: as modelos encerraram a apresentação como se estivessem em um protesto pelos direitos das mulheres e de autonomia fashion. O próprio cenário recriava as ruas de Paris e modelos seguraram cartazes com dizeres “Seja você mesma!”. “Quer mais transformação que isso?”, narrou Jussara. E ela continuou afirmando “Hoje a passarela representa o que está acontecendo na rua”. Os grandes estilistas perceberam isso, a superação da rua na expressão individual de cada um, e eles levam cada vez mais tendências do streetsyle para as passarelas.

Segundo o professor Carlos Costa, o mundo da moda é divertido, porém pouco valorizado. Muitos vêem a área da moda como superficial e fútil. No entanto, os convidados provaram o contrário, e o preconceito com que o jornalismo de moda é encarado hoje foi bastante discutido. “Deve-se pensar que o segmento da moda é um campo sério, que exige pesquisa e preparo”, afirmou o professor, que também cuidou dos textos das grandes reportagens do conceituado Fernando de Barros, quando esse grande personagem da moda editava as páginas de estilo da revista Playboy. Como qualquer outro segmento de produção e consumo, o mercado da moda é bem expressivo, correspondendo a cerca de 15% do Produto Interno Brasileiro.

Todos os convidados ressaltaram, então, a importância de estudar a moda com profundidade e dedicação. Ter conhecimento sobre um assunto é fundamental para basear opiniões, influenciar com o pensamento, e direcionar o mercado. “Ninguém nasce autodidata, precisamos estar constantemente lendo. Como dizia Gonzaguinha: ser eternos aprendizes”, afirmou Costa. E tão importante quanto o conhecimento, o jornalista deve criar sua assinatura própria, a voz de sua personalidade, o que acaba sendo o seu diferencial. “Se você não estiver muito apaixonado, tudo será difícil. Não será prazeroso”.

Jussara Romão esteve à frente do reposicionamento da loja de departamentos Renner, e aceitou o desafio de criar uma revista que gerasse o desejo do consumidor. Geralmente, profissionais da moda se arrepiam ao pensar em trabalhar com grandes lojas de varejo. Catálogos e propagandas de marcas populares normalmente não são feitos com tanto empenho e qualidade como os das grifes de alta costura. Criar a revista da Renner foi então um trabalho que Jussara agarrou: ela quis criar o melhor que pudesse: “Vou fazer tudo o que gostaria de receber se fosse cliente. Vou tratar como se [a Renner] fosse a Chanel”. Reuniu uma equipe sem preconceitos, que queria de fato construir algo novo. O intenso trabalho foi um grande sucesso, que alcançou o objetivo de reposicionar a marca no mercado. Jussara trabalhou com a construção de sensações que, segundo ela, é o papel da comunicação, de aproximar o público: “jornalistas são vendedores; eles vendem as marcas, constroem uma imagem, que vai fazer com que o consumidor tenha desejo de adquiri-la”.

No final, Jussara sorteou seu novo livro, Arquivo Urbano – 100 anos de Fotografia e Moda no Brasil, e ainda brincou: “O livro vai cair nas mãos certas!” Indicado ao Prêmio Jabuti, seu trabalho retrata a trajetória da moda brasileira sob o ponto de vista comportamental, com o uso de fotos de família. Encerrou com chave de ouro uma excelente mesa, que deixou cada pessoa presente com um sorriso estampado no rosto: “Acreditem em seus sonhos. Vocês estão escolhendo um caminho que amam. Estudem. E não percam a oportunidade de fazer a diferença. Boa sorte!”.