Moda, cultura e jornalismo

O meu texto sobre a mesa de Jornalismo de Moda, que aconteceu no começo do mês, para o site da Cásper <3 Pra quem não pôde assistir in loco, dá pra ler um pouquinho sobre os pontos mais interessantes discutidos por Daniela Falcão e Camila Yahn.

A mesa sobre Jornalismo de Moda da 23a Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero contou com dois importantes nomes do segmento: Daniela Falcão, editora chefe da revista Vogue Brasil, e Camila Yahn, editora de conteúdo do portal FFW Fashion Forward. Com a mediação feita pela jornalista, fotógrafa e professora Simonetta Persichetti, o público presente no Teatro Cásper Líbero na manhã de quinta-feira, 3 de setembro, pôde presenciar uma conversa inspiradora e um debate que motivou ainda mais aqueles que desejam seguir carreira na área.

Daniela Falcão se formou em Jornalismo pela Universidade de Brasilia (UnB), no início dos anos 90. Ela conta que, na época, ninguém cogitava seguir carreira em jornalismo de moda – inclusive ela mesma, hoje editora-chefe da revista de moda mais importante do país. “Me formei em uma turma em que todos queriam fazer política, cobrir Congresso. E eu sempre tive horror àquilo”. Depois de formada, Daniela passou por diversos veículos e por diferentes editorias: iniciou sua carreira como trainee da Folha de SP, onde ficou 8 anos (e teve a oportunidade de ser correspondente bolsista na Universidade de Columbia, em Nova York). Teve seus primeiros contatos com a moda quando foi editora da revista de comportamento do Jornal do Brasil, Equilílibro, que era o seu grande sonho. Quando editava as revistas TPM e Trip, seus grandes xodós, recebeu um convite inesperado e irrecusável de editar a Vogue Brasil, cargo que ocupa há dez anos.

Trabalhar com moda também era uma ideia que não passava pela cabeça de Camila Yahn, editora do FFW Fashion Forward. Formada em Artes Cênicas, ela conta que por estar sempre presente na cena noturna, ficou amiga de uma turma ‘da moda’, que incluía importantes estilistas da moda brasileira como Marcelo Sommer, Alexandre Herchcovitch e a jornalista Erika Palomino, uma das pioneiras de jornalismo de moda no Brasil, e que foi sua escola na profissão. “Naquela época ficávamos brincando com a moda, era uma coisa totalmente livre, de expressão, de diversão”, ela conta. Daniela Falcão explica que a história do jornalismo de moda no Brasil é muito conectada a esse cenário da noite, da música eletrônica, dos clubbers, do qual Camila fazia parte. Foi apenas quando, aos 20 anos, Camila foi para Londres estudar teatro que ela começou a entrar no universo da moda, novamente por ter feito amigos na cena da noite que eram ligados ao ramo.

Daniela começou a conversa descrevendo a moda em sua essência: “É uma cultura, como o cinema. Quando você começa a gostar? Não sei. Moda é como você se relaciona, como você sai de casa. É uma coisa que não se perde nunca. É como ouvir música: suas escolhas musicais são como suas escolhas da moda”.

Em um universo que aparenta ser tão glamouroso e com espaço para poucos, uma dúvida pertinente surge da plateia: “O que os estudantes que desejam trabalhar com moda podem fazer desde já para entrar na área?”. Tanto Camila quanto Daniela concordam que o melhor jeito de começar é praticando e, para isso, os blogs são hoje a ferramenta mais apropriada. Daniela dá a dica: “É para isso que eles existem. Seja você mesmo, a graça dos blogs é que eles são pessoais. Você aprende com o erro, e tem a liberdade de poder fazer o que quiser.” Além disso, elas concordam que, durante o período de formação, o estudante precisa ser curioso. Hoje em dia existe muita informação na internet que possibilitam aos interessados estudar a fundo e por conta própria; antes, havia somente a lista bibliográfica provida pela faculdade. “Tem muita gente querendo trabalhar, mas tem pouca gente bem informada.”

Sobre o impasse eterno entre digital e impresso, Daniela diz que o termômetro para a publicação impressa surge justamente das redes sociais. Ela afirma que, para a revista não sair perdendo, ela tem que migrar para o digital; este ambiente é o que permitirá a perpetuação do papel, e não o seu fim, como muito já se foi falado no meio jornalístico. “O digital cria um saborzinho para a pessoa ler a revista. Ele fala com um público que nem sempre compra a revista, mas ama a marca Vogue.” Camila conta que o digital trabalha com a temperatura do dia. É um formato que tem a possibilidade de mudar o seu formato o tempo todo, ele tem que se reinventar constantemente. “O nosso exercício no FFW é: como não ser repetitivo todos os dias. Tentamos ser o que realmente gostamos, o que o leitor gostaria de ler”.