Na Cabeceira: Fama e Anonimato

Além do ‘double-check’

      Gay Talese, autor de Fama e Anonimato, é um americano nascido em Nova Jersey, no ano de 1932. Sua carreira jornalística se iniciou ao acaso. Aos 15 anos, com o objetivo de ganhar destaque no time de beisebol de sua escola, Talese assumiu a função de passar, por telefone, os resultados das partidas escolares ao jornal local, o ‘Ocean City Sentinel-Ledger’. Com seu grande talento de contar histórias, não demorou a ganhar uma coluna semanal no mesmo jornal, terminando o colegial com mais de 300 artigos publicados. Em 1953, formou-se em jornalismo pela Universidade do Alabama, pois, segundo ele, era o que ele conhecia. Depois da faculdade, mudou-se para Nova York, e teve como primeiro trabalho a função de office boy, no renomado jornal New York Times. Após dois artigos que custaram a ser publicados, e dois anos de hiato devido a uma breve participação no exército americano, Talese tornou-se o repórter esportivo do New York Times.

Sua carreira como repórter em revistas se iniciou por volta de 1960, na Esquire Magazine, onde Talese teve a liberdade que precisava para escrever ao seu estilo elaborado e criativo, com descrições minuciosas e dramáticas. Nascia, então, o estilo ‘New Journalism’: a reportagem enriquecida com técnicas literárias de ficção, a qual Gay Talese é um dos precursores.  Vários de seus artigos mais aclamados publicados pela revista Esquire, como ‘Frank Sinatra está resfriado’ e ‘O silêncio de um herói’, estão presentes em sua coletânea de 1970, Fama e Anonimato, que contem textos produzidos por ele há mais de quarenta anos.

      Fama e Anonimato é um livro que pode assustar o leitor à primeira vista: as 536 páginas representadas por uma arte pouco chamativa são desanimadoras. Mas se engana quem julgar o livro por sua capa. Basta a leitura começar para o leitor desejar que o fim do livro demore a chegar.

A primeira parte, ‘Nova York – A jornada de um serendipitoso’, é composta por uma série de perfis da cidade, apresentados em subcapítulos: as coisas que passam despercebidas, os anônimos, os personagens, as profissões estranhas, os esquecidos. ‘A jornada de um serendipitoso’ é a apresentação atemporal da cidade cosmopolita, e trás a tona a particularidade de cada New Yorker, anônimo diante tantos outros milhões de nova-iorquinos. Através deste capítulo, nos encontramos viajando pelos cantos já conhecidos, obscuros, esquecidos, curiosos ou misteriosos de Nova York. Ao contrário de muitas outras obras que tem a ilha de Manhattan como protagonista, o capítulo não é um aglomerado de clichês e estereótipos sobre a cidade, e sim um delicioso passeio realista, graças à descrição minuciosa de Gay Talese.

Originária da reportagem ‘A ponte: a construção da Verrazano-Narrows’ para o New York Times, a segunda parte da obra traz histórias por trás da construção, de 1959 a 1964, que ligou o bairro do Brooklyn, em Manhattan, ao outro lado da ilha, em Staten Island. O capítulo retrata, de um modo um pouco maçante, os vários dramas por trás de uma obra tão grandiosa; do deslocamento de cidadãos comuns para abrir espaço para a construção, ao deslocamento dos joviais e energéticos ‘boomers’, os trabalhadores das construções de pontes, que adoravam sua profissão. Mesmo que não fosse dos mais seguros, e que fins trágicos fossem comuns, os boomers tinham orgulho de seu ofício; além de viajar-se muito, dar dinheiro e prestígio, era uma profissão passada de pai para filho.

‘Excursão ao interior’, a terceira e última parte do livro, contém interessantes perfis de grandes celebridades. Merecem destaque os artigos sobre o lutador de boxe Floyd Patterson (‘O silêncio de um herói’), o diretor de cinema Joshua Logan, o escritor Ernest Hemingway e o jogador profissional de beisebol, mais conhecido como ‘ex-marido de Marilyn Monroe’, Joe DiMaggio. Ainda, a reportagem ‘VOGUElândia’ é mais um interessante e divertido perfil, não de uma pessoa, mas sim de um célebre e sofisticado universo. As descrições bem detalhadas da redação, dos funcionários e da editora Condé Nast, localizada no Graybar Building, nos levam a pensar que Lauren Weisberger se inspirou na obra de Talese, e não em sua experiência real dentro da revista, para escrever ‘O diabo veste Prada’.

No entanto, o grande destaque de ‘Excursão ao interior’ é o incrível capítulo ‘Frank Sinatra está resfriado’.  São cinquenta páginas do livro dedicadas ao cantor, que não deu sequer uma entrevista, seja cara a cara ou por telefone, a Gay Talese. A grande questão é, de onde então, Talese conseguiu todo o material para escrever uma de suas mais importantes reportagens? A resposta: sujando os sapatos.

O jornalista passou semanas seguindo Frank Sinatra, que não lhe concedeu uma única entrevista. Talese não se contentou com o não, e aproveitou todos os meios que possuía para que sua pauta não furasse. Conversou com amigos, familiares e pessoas que já haviam trabalhado com Sinatra, foi a lugares que o cantor frequentava. Participou até mesmo da gravação de um especial de Natal de Sinatra para a TV americana. Chegou tão perto fisicamente, mas passou longe de conversar com o astro. O fato de desencontro, porém, não prejudicou em nada o trabalho de Talese – através de suas investigações, pode conseguir muito mais informações do que conseguiria caso se encontrasse oficialmente com Frank Sinatra. Em seu artigo, o ‘il padrone’ é mostrado ora como uma pessoa simples e carismática, ora como um artista rude e saturado por seu ego. Por fim, sua ‘pesquisa de campo’ acrescentou muito mais do que frases prontas e decoradas vindas de um astro assessorado.

Gay Talese é um adepto da ‘arte de sujar os sapatos’; nunca mediu esforços para conseguir o melhor que sua pauta tem a oferecer. O seu trabalho sempre consistiu em se imergir na realidade do objeto de reportagem, seja ao investigá-lo previamente, ao passar semanas em seu cenário, ao entrevistar centenas de fontes e ao conferir múltiplas vezes a fidelidade de sua produção com a realidade. O jornalismo de Gay Talese está além do ‘double-check’, e deve servir de inspiração a todos os jornalistas que desejam exercem um bom trabalho.

 

Carolina Mikalauskas Sanches é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, ama Nova York e virou fã de Gay Talese depois de ler Fama e Anonimato.

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