Nenhum homem é uma ilha

“De onde surgem as amizades?”, um dia me perguntei, ao me pegar pensando no motivo pelo qual sou amiga de Fulana e não de Ciclana, se nos conhecemos no mesmo dia e no mesmo momento. Não que eu esteja insatisfeita com minhas amizades, ou que gostaria de ter me tornado melhor amiga de Beltrana. Nada disso. Achei graça porque as melhores amizades acontecem de um jeito tão natural e despretensioso quanto andar ou falar. Ninguém anda desesperado pelas ruas, com um sensor que busca amigos. Fazê-los é como jogar em uma peneira com trama bem apertada a mais fina das areias. A maior parte vai rapidamente passar pelo filtro. Uma segunda parte da areia que ficou presa na peneira, vai cair pelos buraquinhos depois de uma ligeira chacoalhadinha. Mas são os pouquíssimos grãos resistentes em cair que são os amigos que valem a pena para a gente manter.

Pare para pensar em seu ciclo social. Tem aqueles, os ‘conhecidos’, que cumprimentamos e conversamos de modo fático, quando os encontramos no shopping ou fazendo feira, e sempre lançamos o famoso “nossa, que mundo pequeno!”. Desses grãos, temos vários – vide os 1367 amigos de seu Facebook. Agora, separando o joio do trigo, concentre-se em seus amigos mais próximos. É possível contá-los em uma mão, no máximo, em duas. Você talvez perceberá que cada um faz parte de um momento diferente de sua vida. Li uma vez, em um artigo que citava uma pesquisa científica sobre amizades, que precisamos de vários tipos diferentes de amigos: um para confiar todos os nossos segredos e problemas, uma para nos fazer cair na real, outro com espírito aventureiro para nos ajudar a sair de nossa zona de conforto, ou ainda aquele só para jogar conversa fora em uma mesa de bar. Uma única pessoa dificilmente exerce todas as funções que procuramos em amizades, da mesma forma que alimentar-se apenas de um único tipo de fonte da cadeia alimentar não nos manterá saudáveis.

Agora pode pensar de novo em seus amigos mais queridos e perceber: tem a amiga do francês, a melhor amiga dos tempos da escola, o grupinho de amigos das suas aulas de inglês quando você tinha 15 anos, a amiga do prédio, o amigão da praia, a colega de trabalho, o seu santo e sagrado grupo de trabalho da faculdade. Estes você faz questão de encontrar, mesmo que juntando os ocupados calendários, o encontro só seja possível uma vez por ano (e olhe lá). Mas aí, novamente, paramos para pensar – como, depois de tanto tempo, ainda mantemos contato com tantas pessoas diferentes? Ou melhor, por que, de tantas outros que passaram por nossa vida, esses são ainda especiais, mesmo que passemos longos períodos sem vê-los?

Se você esperou encontrar uma resposta para as perguntas ao longo deste texto, sinto informá-lo, mas não as tenho. Não por má fé, porque acredite, já tentei buscá-las em tudo que é lugar imaginável. Só sei que não é á toa que as pessoas passam por nossa vida. Como na peneira, uns ficam, muitos saem. De todos levamos aprendizados. E pelos que ficam, temos que ser gratos. Pois aquela mesma pesquisa do artigo que citei no começo dizia que os amigos nos ajudam a viver uma vida mais longa, feliz e saudável. Além do mais, como dizia Thomas Morus: “Nenhum homem é uma ilha”.