Zuzu e a Ditadura: militância através da moda

Ocupação Zuzu é uma incrível e interativa exposição do Itaú Cultural, em homenagem à estilista mineira Zuleika Angel Jones. Zuzu começou sua carreira costurando para ela e para os filhos, até se encontrar em projeção no cenário da moda, tanto brasileiro, quanto – principalmente – o internacional. Fez grande sucesso no exterior com suas estampas e temáticas típicas brasileiras: alegres, tropicais, com flores e pássaros. Em sua lista de clientes, constaram primeiras-damas e celebridades internacionais, como a atriz Liza Minelli. Zuzu Angel, etiqueta da alta sociedade, foi precursora da brasilidade na moda, e costumava afirmar: “eu sou a moda brasileira!”.

A exposição não leva o nome à toa: é literalmente uma ocupação de quatro andares no prédio do Itaú Cultural. Logo no térreo, está a primeira parte da exposição: uma cronologia história, correlacionando fatos sobre a estilista, a situação histórica do Brasil e trechos de música e literatura, além de livros sobre moda e vídeos, incluindo a última entrevista de Zuleika dada à mídia, pouco antes de seu assassinato.

Ao subir o primeiro andar, o visitante é acolhido por um letreiro luminoso com o nome ‘Zuzu’. Em um amplo espaço, estavam espalhados os figurinos, croquis, estampas e bordados alegres de Zuzu. Ainda, havia revistas em que o trabalho da estilista foi exposto, e até mesmo sacolas, fitas e cartões de visita que eram utilizados em sua loja. Uma salinha no canto do salão reproduziu o seu atelier. Definitivamente o meu andar preferido, onde foi possível sentir o sucesso que foi a marca que teve um anjinho como logotipo.

No primeiro andar abaixo do térreo, está o espaço dedicado ao Luto de Zuzu Angel. Uma parte de grande teor emocional, tema e paredes pretas, que dão ênfase à fase sofrida da estilista, durante os chamados ‘Anos de Chumbo’. A partir do assassinato de seu filho, Stuart Angel, grande ativista durante o regime militar, em 1971, Zuzu passou a viver e trabalhar a partir de seu luto. Não só vestia-se apenas de preto quando em público, mas também usou seu ofício como uma majestosa forma de protesto – a alegria tropical fora trocada por temas militares e obscuros. Seus bordados costumeiros  passaram então a ser representados por anjos feridos, canhões de guerra, pássaros engaiolados e outros desenhos que transparecessem o seu sentimento mais profundo em um tempo de terror. Dessa forma, Zuzu Angel foi a primeira estilista brasileira – e provavelmente, também internacional – a usar a moda como um protesto e denúncia à política.

Os destaques para este andar são, além dos figurinos, estampas e bordados de luto da estilista, documentos e cartas da busca incessante, escritas para diversos remetentes, como amigos e até governantes americanos, a partir do momento do desaparecimento de seu filho, até o dia do acidente de carro premeditado que matou Zuzu Angel. Em uma parede, ondas do mar são projetadas, ao mesmo tempo em que o som da maré dá o tom ao ambiente. Ainda, o visitante pode escrever uma carta a um conhecido desaparecido durante a época do Regime Militar.

O segundo andar abaixo do térreo foi dedicado a um espaço interativo, onde durante o período da exposição, ocorreram interessantes e enriquecedores oficinas e discussões sobre moda, política e comunicação, e que contaram com importantes nomes da moda brasileira como Ronaldo Fraga, Isabela Capeto e Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel. Neste andar, um grande painel com uma estampa, em preto e branco, não finalizada por Zuzu, esteve à disposição para que os visitantes lhe dessem continuidade. Com canetinhas coloridas, muitos pintaram os ramos de flores e pássaros aprisionados, enquanto outros utilizaram o espaço para deixar uma mensagem em homenagem à estilista.

abril/2014

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